O mundo está a mudar. A economia, as sociedades, o nosso modo de vida. A maioria de nós nunca conheceu um cenário de calamidade. A maioria de nós nunca viveu isolado. E, ainda assim, aquilo pelo que estamos a passar não é nada comparado com o que se vê e tens visto ao longo da história. O tal “isolamento” que vivemos é relativo. Temos comunicações, temos internet, temos skype, whatsapp, houseparty e outras variantes. Temos UberEats e Glovo. Tudo o que conhecemos continua, de uma forma ou de outra. Ainda…

Mas a verdade é que vai mudar muita coisa. O desemprego vai subir. As falências vão aumentar. O desespero das famílias. A taxa universal de suicídio. É inevitável. Países vão contrair dívidas (Todos os estados vão contrair dívidas uns com os outros. Para mim isso é bizarro) Empresas. Hospitais. Sistemas nacionais de saúde. E depois teremos o impacto na demografia. Milhares de perdas. E na classe médica e de cuidados de saúde? Qual a taxa de fatalidade? As sociedades vão ficar desfiguradas. Nada nunca voltará a ser o mesmo.

Daqui a muitos anos, se ainda tivermos uma sociedade estruturada – penso que sim, não sou assim tão fatalista – o ano de 2020 irá ocupar pelo menos um capítulo nos livros de história. Todas as outras epidemias e pandemias serão meras notas de rodapé. O covid-19 terá muitas alcunhas macabras. E deixará marca na memória de todos. Haverão crianças que cresceram com a realidade do corona sem ter conhecido outra. E isto mesmo considerando a possibilidade bem real de termos vacinas dentre de 18 meses. Mas haverão sempre aqueles a quem os cuidados de saúde não chegam ou chegam tarde demais. E serão esses que irão ser a referência do ano que está a ser 2020. Serão esses a nossa cicatriz, bem visível.

Temos que aproveitar o tempo e a vida que temos. Hoje, mais do que nunca, nas sociedades ditas “evoluídas” e “modernas” nunca vivemos uma situação em que a perspectiva de perder a vida e vermos as pessoas que nos rodeiam a serem dizimadas por um assassino invisível foi tão palpável. Talvez por isso os governos tenham sido displicentes e as povoações tenham estado até à última a pensar que “só acontece aos outros”. Mas a verdade é que subitamente bateu-nos à porta. A verdade é que de repente, o simples ato de sair à rua é um risco. Para alguns é mesmo brincar com a muito real possibilidade de morrer ou ficar marcado o resto da vida. De repente cada possibilidade de inspirar fundo à janela se torna preciosa. Temos que aproveitar.

Eu, dentro dos grupos de risco, não arrisco. Em quarentena forçada e consciente, dou por mim a equacionar tudo. Terei que mudar coisas práticas. Terei que mudar coisas em mim. E aproveito para, numa perspectiva de mais uma vez – é preciso sermos relembrados de vez em quando – a vida que temos é só uma, temos que fazer tudo para sermos felizes e fazermos felizes quem amamos. Por muito que doa, por muito que custe. É nestes momentos que são tomadas as decisões difíceis. É neste momento que rasgamos com o passado. É neste momento em que o presente nos vai determinar o futuro. É aqui. É agora. Isolados mas nunca deitados abaixo. Reerguermo-nos conscientes que tudo passará. Se, e aqui reforço o SE. Se tivermos conscientes do risco real e nos protegermos.